sábado, 19 de outubro de 2013

Prisioneira

   Pulsos e tornozelos presos a grilhões numa das paredes de um calabouço imundo, refém de sua tola e equívoca depressão desmedida que se alimentava da mente debilitada e desmotivada a libertar-se. Trêmula, permitindo-se encurralar por devaneios em posse das mais diversas artimanhas, gozando da vantagem de conhecer cada fraqueza de sua débil vítima.
   A verborragia autodepreciativa faz de dela uma deprimente figura que implora por atenção. Via-se cercada de olhos dotados de uma esforçada paciência com um brilho piedoso e sentia-se envergonhada, suja pela incapacidade de livrar-se desta prisão mental a qual se impusera. Uma impotência que só existe na depressão de um ser frágil e masoquista, incapaz de conter as próprias sombras quando não pode exterminá-las.

   Dores e temores metamorfoseando-se diante dela, dúvidas inquietantes e sombras invisíveis sussurrando e praguejando. Uma Julieta que teve furtado o suicídio. Um rastro da luz de outrora, ou menos que isso. O mero disfarce que mascara o dissabor de seu questionável ser. 

A vida de Sangue&Alma

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Encontro

És aquele que bebe de mim
Os mais doces sentimentos
E como numa valsa,
Tão leve assim,
Conduz meus movimentos

Flutuando valsamos então
E na segurança do teu abraço
Com o calor das tuas palavras ao meu ouvido
E o encaixe perfeito das tuas mãos
Eternizamos nosso laço

Encontram-se os olhares
Palpitam os corações
Ao delicado toque dos teus lábios
Já não controlo as emoções

Pela luz das estrelas
Nosso encontro é banhado
Sendo a lua uma cúmplice
Do casal apaixonado


A vida de Sangue&Alma 
e
Mázida B. de Lima

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Luxúria


Desperta-me o aroma das flores
O prenúncio da tua chegada
E logo afloram os calores
Aproximando-se a hora marcada

A tua presença exala
Os ares da paixão
E o teu olhar me fala
Num jogo de sedução

Entre sorrisos e amores
Num beijo estalado
Misturam-se os sabores
Deixando um corpo abrasado

Tuas carícias caminham
Por toda minha pele
E as curvas sublinham

O desejo arde então
E a tórrida luxúria
Me acomete o coração

Me tomas com voracidade
E os sentimentos têm vazão
Em nossa sagacidade


A vida de Sangue&Alma






sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A imortal (parte 3 - Anjos)

Canadá, 2015
            Um forte cheiro de sangue invadiu o recinto, não era sangue humano nem animal. O aroma entrou pelas narinas da bela mulher, despertando seu organismo. Faminta, seus olhos de ires vermelha se abriram e suas presas cresceram. Ela levantou-se em busca desse sangue diferente e deparou-se com um homem alto e forte escondido nas sombras.
            Percebendo o invasor, Helen ficou furiosa e cerrou os punhos, aproximou-se do estranho a passos largos e esbravejou:
            -Como ousa profanar este túmulo?
            O homem a mediu de cima a baixo e riu.
            -Vejo que não tens respeito por nada, por isso agora conhecerás teu fim.
            O estranho deixou as sombras, revelando asas que partiam de suas costas, elas eram brancas rajadas de sangue. Aquela aparição assustou a vampira e ela recuou alguns passos.
            -É o fim dos tempos? Vieste levar minha alma?
            A reação de Helen fez o anjo rir novamente.
            -Ainda não é o fim dos tempos e, mesmo que fosse, levar sua alma não seria tarefa minha.
-És um enviado do Céu ou do Inferno?
-De nenhum deles.
-Quem és, então?
-Me chamo Daniel, sou um anjo renegado.
Daniel era um querubim, casta de anjos guerreiros e fora renegado por participar de da irmandade que discordava do governo tirano de Miguel, o príncipe arcanjo. Agora estava preso em um corpo humano no plano físico, onde desprender as asas exigia muita energia.
As asas do querubim se recolheram e ele sentou entre as sombras, o cheiro de sangue continuava a exalar dos cortes recentes nos braços e rosto, provavelmente estivera em uma briga pouco antes de entrar no mausoléu.  Aquele aroma aumentava a fome da vampira, que já não se alimentava há dez anos.
-Só preciso descansar um pouco, em breve irei embora.
A imortal não queria atacar o celeste, por isso deixou o mausoléu para alimentar-se e voltou menos de uma hora depois. Ao flagrar o alado examinando o caixão de Benjamin, a fúria invadiu-a novamente.
-Afaste-se dele _Helen falou entre dentes
-Não farei nenhum mal a ele.
-AFASTE-SE!
Daniel recuou e a vampira se debruçou sobre o caixão, abraçando-o como se o lobo pudesse sentir. Então o recinto foi invadido por outro cheiro desconhecido, trazido pela brisa que passava pela porta entreaberta. O querubim enrijeceu e a imortal sentiu o perigo se aproximar.
Levados pelo instinto, os dois deixaram o abrigo do mausoléu. Helen preocupou-se em trancar a porta para proteger o corpo de seu amado. Um vulto alado deslizava entre as lápides negras em direção aos imortais. Era um anjo caído que outrora lutara ao lado de Daniel no exército celeste, mas aliou-se a Lúcifer, foi expulso do paraíso e agora tinha a missão de levar o renegado para o lado sombrio ou matá-lo.
            Diante da recusa de Daniel, travou-se uma sangrenta batalha que se mantinha empatada. Num deslize do renegado, o caído o encurralou, mas antes que pudesse desferir o golpe letal, a vampira o atacou, arrancando uma de suas asas negras.  Em desvantagem devido ao ferimento, o caído conseguiu fugir para a escuridão da noite e seu cheiro desapareceu segundos depois.
            O alado agradeceu a ajuda e antes que Helen voltasse à reclusão de seu sono eterno, ele alertou:
            -O anjo negro voltará quando se recuperar.
            -Ótimo, arrancarei a outra asa para ficar igual.
            -Aquele homem que você protege pode estar morto, mas sua alma é imortal. Você não faz ideia do que o caído fará se souber da sua ligação com ele.
            Helen estremeceu ao pensar na alma de Benjamin, que poderia ser torturada pelo anjo negro e, mesmo que lhe fosse doloroso, ela soube que não poderia permanecer ali então se despediu do lobo, trancou o mausoléu e partiu com o anjo, deixando seu coração naquele cemitério.
            Os imortais seguiram para o sul, onde poderiam se disfarçar entre os humanos. Depois de tantos séculos vivendo no plano físico, Daniel aprendera a conter as emanações de sua aura pulsante, que funcionava como o coração dos anjos e seu poder era sentido pelos outros alados.
            Chegando a uma cidade pequena, Helen e Daniel alugaram quartos numa pousada. Aquele era um bom esconderijo, mas não estariam seguros eternamente, pois quando o caído se recuperasse, certamente os caçaria.
            A vampira não simpatizava com o anjo e discutia com ele por qualquer motivo. Ele, pelo contrário, apreciava a companhia dela e lhe fazia várias perguntas, muitas vezes chegando a ser inconveniente, mesmo que não percebesse. Daniel via em Helen um coração humano com as marcas da imortalidade, olhos que viram os séculos passarem. E isso o encantava. Este encanto fez o querubim conhecer um sentimento humano que ele antes só ouvira falar e acreditava que seria impossível sentir: ele apaixonou-se. E em pouco tempo, assim como nos romances de que ouvira falar.
            Após um ano de convivência Helen aceitou a amizade de Daniel e aos poucos nutriu por ele sentimentos de carinho. Ela sabia que o alado queria mais que isso, mas por ora a imortal não estava pronta para amar novamente.
            Meses tranquilos se passaram até que o caído finalmente os encontrou para acertar contas. Sua asa havia se regenerado, mas várias penas fora do lugar deixavam ver uma longa cicatriz. Desta vez o infernal não viera sozinho, ao seu lado estava outro caído, este tinha asas de morcego e o rosto deformado.
            As criaturas sombrias ofereceram ao querubim uma última chance de juntar-se a eles e diante da nova recusa deu-se inicio a outra batalha. Daniel tentou ao máximo defender Helen, mas, mesmo com sua vasta experiência, não foi eficaz, pois os infernais eram grandes lutadores.
            Helen defendia-se bem durante a batalha e sabia que as asas eram uma grande fraqueza dos anjos, mas desconhecia a própria fraqueza. Aproveitando-se de um segundo de distração da vampira, o caído lhe injetou sangue de um morto. A imortal sentiu o fluido frio correr em suas veias queimando como ácido e viu Daniel assustado gritar seu nome, mas não ouviu som nenhum, então a escuridão a dominou.
            Ver Helen caída inconsciente deixou o anjo furioso e o fez lutar com todas as suas forças para derrotar os infernais. Ao matar o anjo negro, o segundo caído fugiu de volta às sombras. Daniel então se aproximou da vampira e ajoelhou-se ao lado dela, tentando despertá-la de qualquer forma. O sangue de morto agia como veneno para ela e só havia uma forma de trazê-la de volta.
            A vampira viu-se perdida num mundo disforme, ela tinha consciência, entretanto todos os pensamentos se dissipavam. Havia uma sensação estranha de dormência e ela não sabia dizer quanto tempo passara até que ela fosse substituída por um forte cheiro de sangue, que logo se tornou um delicioso sabor e a fez recuperar os sentidos.
            Ao acordar, a imortal deparou-se com o azul dos olhos do querubim e levou alguns segundos para perceber que seus dentes estavam cravados no braço dele.  Sangue de anjo pode fazer um humano imortal ou curar um vampiro no estado de Helen.

            Daniel sorriu largamente ao ver sua querida Helen despertar e, quando ela tirou os dentes de seu braço, ele agiu como um humano beijando-a nos lábios. Naquele momento, a imortal percebeu que a profecia de 200 anos atrás se cumprira. Sete pessoas deixaram de fazer parte de sua vida: seus pais, os dois filhos, a neta, Adam e Benjamin; após a morte do último ela se recusara a viver, adormecendo por dez anos e quando acordou, a Helen do passado havia morrido; não tivera filhos com o lobo; e agora percebia que correspondia os sentimentos do alado cumprindo a ultima parte: viver juntos a eternidade.

A vida de Sangue&Alma
Gabriela G. Bastos



quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A imortal (parte 2 - Lobos)

Estados Unidos da América, 1945
            Os bons ares do Novo Mundo prometiam acolher Helen. Em poucos dias ali, já havia notado a presença de outros iguais a ela, mas preferiu declinar de sua companhia. O vilarejo onde se instalara era cercado de lendas de feiticeiros e de um povo descendente dos lobos.
            Certo dia, a vampira caçou uma presa até a orla da floresta e enquanto alimentava-se do fluido vital sentiu um cheiro forte que imaginou ser uma alcateia, mas logo percebeu se tratar de um grupo de rapazes. Helen podia ouvir seus corações baterem agressivos e teve a certeza de que eram descendentes dos lobos, seus inimigos naturais.
            A imortal largou o corpo inerte de sua caça e manteve as presas expostas enquanto os lobos se aproximavam, eles podiam sentir seu cheiro e estavam furiosos por ela alimentar-se no território deles.  Os rapazes estavam perto o suficiente para seu cheiro ser nauseante.
Helen manteve-se firme e olhou no rosto de cada um deles, então um jovem chamou sua atenção. Seus olhos castanhos eram doces e seu coração não pulsava agressivo, quando os outros se adiantaram para repreender as atividades de caça da vampira, o jovem partiu em sua defesa, mostrando que o corpo no chão era de um assassino procurado.
A despeito dos protestos de seus companheiros, o lobo de olhar doce apresentou-se como Benjamin e ofereceu-se para acompanhar Helen em segurança de volta ao vilarejo. Surpresa diante da gentileza, Helen aceitou. No caminho, Benjamin desculpou-se em nome da alcateia e alertou que aquela região era protegida por eles. A vampira respondeu que eles não precisariam preocupar-se com as pessoas inocentes, ela só alimentava-se de criminosos.  A nova informação impediria os lobos de atacá-la por enquanto.
Conforme os meses se passavam, Benjamin frequentava cada vez mais o vilarejo e arrumava sempre um pretexto pra ver Helen. A amizade que surgiu era contra o instinto de ambos, mas eles não se importavam, nem mesmo a hostilidade da alcateia os afastou.
O sentimento entre o lobo e a vampira crescia e tornava-se cada vez mais belo e aos poucos um amor floresceu. Apesar de sua condição, Helen sentia-se humana o suficiente para amar e temer que seu coração fosse partido novamente. O amor de Benjamin era sincero, e seu maior desejo era fazer a imortal feliz.
Alguns vampiros nômades passavam por aquela região e, devido à proteção dos lobos, geralmente não deixavam rastros, mas, certo dia duas mortes foram registradas. A alcateia voltou-se contra Helen e Benjamin a defendeu.
-Posso lhes garantir que Helen não matou essas pessoas!
-Filho _o líder dos lobos tentou convencer o rapaz_ há marcas de presas nos corpos, quem mais poderia ser?
-Senti o cheiro de outros vampiros indo para o norte, com certeza algum deles parou para se alimentar.
-Benjamin, um dia você assumirá meu lugar e não será um bom líder agindo assim. Chegou a hora de você escolher entre a alcateia e essa vampira!
A imortal jamais exigiria dele tal escolha e, nem mesmo quando perseguida e hostilizada, ela queixou-se de alguma atitude dos lobos. Enquanto a vampira mostrava-se doce e gentil, a alcateia tornava-se cada vez mais agressiva. Diante daquela pergunta, Ben teve pouco a pensar antes de decidir-se.
-Escolho a Helen e conheço as consequências de minha decisão.
-Esta é sua palavra final?
-Sim.
-Está ciente de que não haverá volta?
-Estou.
-Adeus, filho.
-Adeus, pai.
Escolhendo a vampira, Benjamin não era mais bem vindo entre os lobos e, não estando mais preso a eles, poderia finalmente atender ao maior desejo de seu coração: casar-se com Helen. O pedido foi uma surpresa, mas não demorou muito para que fosse aceito. Estando fora da alcateia, Ben não mais poderia interceder por sua amada, então o casal rumou para o Canadá, onde foi realizada uma singela cerimônia de casamento.
Ali o lobo e a vampira viveram felizes durante muitos anos. Benjamin entretanto era mortal e por ser descendente dos lobos, não poderia ser transformado em vampiro, seu inimigo natural e Helen já não podia gerar descendentes.
Canadá, 2005
Benjamin envelheceu e morreu ao lado de sua amada Helen. A vampira preparou a nova e eterna morada dos dois com esmero e pesar, ela não suportaria viver em um mundo onde seu amado Ben não mais vivesse.
O mausoléu era escuro, mas podia-se facilmente encontrar um altar no centro, onde repousava o caixão do lobo e ao seu lado deitara sua esposa, adormecendo pela primeira vez em 180 anos para deste sono não mais acordar. Tendo como maldição a eternidade, não podia sequer abandonar esta vida que lhe tirou seu grande amor, então se negou a viver da forma que conseguiu.


A vida de Sangue&Alma
Gabriela G. Bastos

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A imortal (parte 1- Vampiros)


A história a seguir é inspirada em fatos reais

Inglaterra, 1825


Após a sétima despedida
De um mal incurável será a sua partida
Descendentes não vai deixar,
Mesmo depois de o lobo guiar
Só depois que o celeste vier
A eternidade poderá viver

            Helen acordou assustada no meio da madrugada, mais uma vez sonhara com a velha cigana cega que previu seu futuro anos atrás. Aqueles versos a assombravam, ela não entendia as metáforas sobre o lobo e o celeste, nem como poderia viver pela eternidade se morreria de um mal incurável. Ela seria um fantasma? E não deixaria descendentes? Que sorte triste!
            Mas ela preferia não pensar assim, afinal seu tio lhe conseguira um noivo, Albert, um jovem bonito e de boa família. Helen confiava na escolha do tio, que cuidou dela desde a misteriosa morte de seus pais. Todos diziam que seus pais foram mortos por ataque animal, e mesmo isso parecendo impossível naquela região da Inglaterra, houve vários casos parecidos.
            A jovem tentou não pensar na profecia durante aquele dia, que era o mais importante de sua vida: seu casamento. Ela esteve deslumbrante e estava claramente feliz, mesmo que conhecesse pouco Albert, se apaixonara por ele. Depois da festa, os recém-casados viajaram para Londres.
            Nos primeiros meses de casamento, Helen começou a perceber que Albert era ambicioso e vaidoso, mas isso não afetou em nada o amor que ela tinha pelo esposo. Passado um ano, nasceram os gêmeos Lucy e Louis. Diferente do irmão, a menina tinha saúde frágil e morreu antes do primeiro aniversário sem que nada pudesse ser feito. Despedaçada pela morte da filha, Helen dedicava seus dias a cuidar de Albert e Louis, eles eram sua vida.
            Três anos se passaram desde então, era uma noite de inverno quando Albert entrou pela porta da sala assustado e com a roupa suja de sangue. Assustada, Helen quis saber o que houve e se o esposo estava ferido. Ele sentou-se no sofá, disse que não estava ferido e com ar sombrio lhe disse que os humanos não estavam sozinhos, vampiros eram reais. A princípio Helen pensou que Albert estivesse maluco ou tentando pregar-lhe uma peça, mas então ele mostrou que era um deles.
            A visão das presas deixou a mulher horrorizada e com calma, Albert explicou-lhe como isso aconteceu. Ele flagrara um amigo atacando um de seus funcionários e surpreendeu-se ao ver que o agressor era um vampiro. Descoberto, o vampiro virou-se para Albert e disse que teria de matá-lo, mas então ele pediu ao amigo que o fizesse como ele, assim teria de guardar o segredo.
            Helen ficou atordoada, descobrir que vampiros são reais já seria bastante perturbador, mas seu esposo ser um deles era insanidade! E em terceiro, para a loucura estar completa, ela estava sendo convidada à imortalidade. Ela precisava de um tempo para pensar, mesmo que a eternidade ao lado de seu amado fosse convidativa, ela estaria disposta a pagar o preço de viver eternamente? Estaria disposta a ser uma assassina? A ver as pessoas que ama envelhecerem e morrer?
            Alguns meses se passaram até que ela se acostumasse à nova condição de Albert e aceitasse ser imortal como ele, pediu apenas que Louis não fosse transformado também, pelo menos até poder escolher por si só. A mordida não era muito dolorosa, mas o veneno parecia queimar em suas veias e quando subiu para a cabeça tornou-se quase insuportável. Depois do que pareceu uma eternidade a dor cessou subitamente e seus sentidos se tornaram extremamente aguçados.
            Apesar dos novos atributos, Helen sentia-se humana. Ela ainda podia amar, sentir medo, tristeza, felicidade e a garganta muito seca, de repente notou que estava faminta. Olhando para se esposo viu cada detalhe de seu rosto e pensou no quanto era belo, ele lhe disse que precisavam se alimentar. Era o que ela mais temia: matar alguém para alimentar-se. Mas para isto já havia pensado em uma solução que não lhe fosse tão desagradável, ela só tiraria a vida de pessoas más.
            Era noite quando Helen saiu acompanhada de Albert para sua primeira caçada. Ela enxergava perfeitamente a despeito da débil iluminação, sentia o cheiro de tudo e podia ouvir sons que estavam distantes, ouvia inclusive corações pulsando. Seus olhos pousaram em um senhor mal encarado que seguia duas jovens, Helen tinha certeza de suas más intenções e escolheu sua primeira presa.
            Furtivamente, o casal de vampiros acompanhou o homem que ainda estava no encalço das senhoritas. Todos adentraram uma estrada deserta àquela hora e o casal viu as jovens serem abordadas pelo senhor, que as agarrou pelo vestido. Tomada por seus instintos de caça, Helen correu até sua presa e libertou as jovens dizendo para correrem sem olhar para trás. Os olhos da imortal tornaram-se vermelhos diante do rosto confuso do homem, então suas presas se mostraram.
            Albert juntou-se à esposa e os dois cravaram os dentes naquele senhor, que gritou de dor enquanto o casal sugava-lhe o cálido líquido vital. Somente quando a luz abandonou seus olhos e a cor esvaiu-se com o sangue, a fria carcaça foi largada na estrada e os imortais saciados voltaram para casa.
            Com o passar do tempo, Louis cresceu e tornou-se um bom homem. Quando lhe foi perguntado, optou por ser mortal. Ele casou com uma jovem de boa família e teve uma filha, a quem deu o nome de sua falecida irmã. Helen e Albert tiveram que morar em outra cidade para proteger suas identidades, afinal eram jovens demais para ser avós, apenas Louis sabia a verdade.
            Após a mudança, Albert passou a demonstrar cada vez mais desejo por liberdade e aventuras, mostrava-se completamente diferente do rapaz por quem Helen se apaixonara décadas atrás. Mas, em nome daquele amor, a imortal adaptava-se a suas mudanças.
            A jovem Lucy acreditava que a avó fosse irmã de seu pai, e a suposta tia foi a primeira a conhecer de seu desejo de entrar para um convento. A vampira ficou triste com a decisão, afinal era sua ultima descendente, mas mesmo assim ajudou a jovem a realizar seu desejo. Louis e a filha morreram de velhice, pondo fim à linhagem de Helen.
            Inglaterra, 1945
       Pouco tempo após a morte da neta, a imortal teve a maior decepção de sua vida, ao descobrir que Albert a enganara durante anos, traindo-a com outras vampiras e mesmo com algumas de suas vítimas. A descoberta a teria matado se ela pudesse morrer, mas Albert lhe havia tirado esse direito há mais de um século.

            Aquele país lhe trazia lembranças dolorosas após a separação e sem nada que lhe prendesse naquele lugar, ela viu um recomeço no Novo Mundo e traçou seu destino rumo à América. 

A vida de Sangue&Alma
Gabriela G. Bastos

domingo, 18 de agosto de 2013

Esta noite


Esta noite eu queria crer
Que pode haver magia
Mesmo que amanhã possa ver
Que era tudo fantasia

Esta noite eu queria ter
A juventude eternamente
Mesmo que amanhã só possa ser
Jovem mentalmente

Esta noite queria perder
O medo que me prende
E impede de viver

Só esta noite queria poder
Realizar meus desejos
E ver o sonho acontecer

A vida de Sangue&Alma

domingo, 4 de agosto de 2013

Confesso

Meus passos ecoam na vastidão
Do caminho ermo que atravesso
Enquanto grita meu coração
Na simplicidade de um verso.

Numa suave canção
Enfim eu confesso
Que uma ardente paixão
Em meu peito eu conservo.

Mas chega de ilusão
Por favor eu peço
Quero apenas afeição
E meu amor por perto.

A vida de Sangue&Alma

sábado, 3 de agosto de 2013

A entrevista (final)

Durante alguns meses os dois se encontraram e saíram apenas como amigos, e se divertiam bastante juntos. Eles conversavam sobre tudo e aos poucos Bella foi percebendo que David era sensível, compreensivo, espontâneo, divertido e tinha uma mente aberta. Com o passar do tempo, ela viu seus dias serem preenchidos pela alegria que seu novo amigo trazia e o plano de afastá-lo ficava cada vez mais distante.
Apesar da curiosidade, David era uma boa companhia e o coração de Isabella ficava aquecido ao vê-lo. Ali um sentimento crescia e ficava cada vez mais forte. No inicio ela não entendia, depois tentou negar, mas era difícil esconder algo tão belo e que transbordava em forma de olhares e sorrisos. O persistente jornalista conseguiu afinal, destrancou o coração da escritora e o conquistou.
Certo dia, os dois conversavam animadamente à sombra de um carvalho no Central Park quando Bella avistou Albert, seu ex-namorado que deu origem a Adam. David também o viu e abraçou Isabella no momento em que o homem os viu. A escritora ficou agradecida pelo gesto, mas já não lhe importava o que Albert pensaria, ela realmente gostou do abraço espontâneo e o abraçou de volta.
-Ele já foi _David falou após alguns segundos
-Eu sei... Obrigada.
-Disponha.
Os dois ainda estavam bem próximos quando seus olhares se encontraram e faltaram as palavras. Eles podiam sentir a respiração um do outro cada vez mais perto, até os olhos se fecharem e os lábios se tocarem. Não se sabe quanto tempo o beijo durou, podem ter sido míseros segundos, ou até mesmo incontáveis horas.

Um ano depois, Isabella publicava o quarto livro da série “A imortal”, no qual Helen era despertada por Daniel, um anjo renegado que lhe faria amar novamente, mas desta vez seria pela eternidade. A autora também teve seu “final feliz”, casando-se com o curioso e persistente repórter, que trouxe vida e alegria aos seus dias.

Gabriela G. Bastos
A vida de Sangue&Alma

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A entrevista (parte 3)

No dia seguinte, Bella caminhava pelo Central Park, distraída com o livro que tinha em mãos. De repente, ela tropeçou e caiu em alguém que estava sentado à sombra de uma árvore.
-Me desculpe _ela levantou, procurando seu livro_ eu estava lendo e não..._ só então ela viu que foi em David que tropeçara e sua expressão mudou_ Ah, fala sério!
-Você é pesada, heim!?
-Está me seguindo outra vez? _ela perguntou ignorando o comentário do repórter
-Você que tropeçou em mim. Se eu estivesse te seguindo, com certeza não ficaria no caminho pra te fazer cair.
-Ok, desculpe.
-Tudo bem. Você já leu a entrevista?
-Ainda não, estou indo para casa ler.
-Estou com o jornal aqui, você pode ler e me dizer o que achou.
-Ok.
Bella sentou-se ao lado de David e ele entregou-lhe seu exemplar do The New York Times, ela leu a entrevista e deteve-se alguns instantes na introdução:
“Nos últimos três anos, ‘A imortal’ encantou milhares de leitores, a trilogia mostra a história de Helen, uma humana que se torna vampira para seguir seu amado pela eternidade, mas depois de algumas décadas o casamento acaba devido às traições do marido. Sozinha, sem parentes vivos, Helen vai para a América, onde conhece um lobisomem e os dois se apaixonam. Não sendo um imortal, o lobisomem morre alguns anos depois e a vampira junta-se a ele da forma como pode: dormindo pela eternidade.
Por trás desta mágica trama de dramas e romances, está Isabella Winchester. A jovem, bela e reservada autora raramente concede entrevistas, mas nestas ocasiões podemos notar sua personalidade doce, objetiva, romântica, carismática e levemente insegura.”
-“Levemente insegura”?_ela olhou para o repórter_ O que você pensa que sabe sobre mim para publicar essas coisas?
-Sei que você tem medo de amar novamente. Mas minha intenção não foi te irritar.
-Ah não, obviamente sua intenção era se intrometer mais uma vez em assuntos que não lhe dizem respeito!  Você não sabe nada sobre mim, não pode sair publicando essas coisas!
-Qualquer um pode ver que você é insegura, você tem medo de amar novamente porque um cara te traiu e o outro morreu, mas não precisa ser assim, duas experiências ruins não querem dizer que todas as outras serão. Não tenha medo de se apaixonar novamente, você ainda é tão jovem.
-Não te devo satisfações da minha vida pessoal. _Bella levantou irritada e David levantou-se em seguida, arrumando seus óculos.
-Por que você é sempre tão brava?
-Talvez porque você seja sempre intrometido e inconveniente!
-Alguém precisava te dizer essas coisas.
-E o que te faz pensar que essa pessoa seria você?
-Meu coração.
-Ah, fala sério! _a jovem virou-se para sair, mas o repórter segurou-a pelo braço e virou-a de volta, olhando em seus olhos.
-Por trás de todo esse medo e toda essa raiva, tem uma mulher doce e romântica querendo ser resgatada.
-Me solta _ela puxou o braço, mas não havia convicção em sua voz e isso fez o jovem sorrir.  Ele aproximou o rosto dela, de modo que pudesse sentir sua respiração entrecortada.
Quando percebeu que o jovem não chegaria mais perto que isso, Bella relaxou e se afastou. No fundo ela sabia que David tinha razão, ela tinha sim medo de amar novamente, e temia também estar se apaixonando por aquele homem inconveniente e curioso. E se ele a magoasse também? Se quisesse conquistá-la apenas para provar que conseguiria? Se a enganasse? Até mesmo Bruce já a enganara antes, escondendo a doença que o levara. Quem garantia que este homem que ela mal conhecia seria diferente?
Percebendo a dúvida no olhar da escritora, David pensou em algo.
-Bella, vamos nos conhecer, sem segundas intenções. Seremos amigos apenas. Não vou te forçar a abrir seu coração para o amor, apenas peço uma chance para te conhecer e mostrar quem sou. Se não me aceitar nem como amigo, me afasto e não te importuno mais. O que acha, amigos?
-Amigos.

Parecia ser um bom trato. Depois de alguns dias ela diria que não o queria nem como amigo e não precisaria mais vê-lo. O que ela não sabia é que seria difícil fazer isso. 

Gabriela G. Bastos
A vida de Sangue&Alma

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A entrevista (parte 2)

            David estava em seu apartamento, revisando a entrevista em seu laptop, pensando em Isabella. Pensava em sua expressão quando falava do amor de Helen por Benjamin, em seu sorriso, seu ar sonhador e no brilho dos seus olhos tristes. Ele não conseguia se concentrar em nada além daqueles olhos azuis, queria fazê-los felizes.
            Decidido a falar com ela, o jovem pegou as chaves do carro e saiu. Chegando lá, ele viu Bella sair de carro e resolveu segui-la. A autora foi a uma floricultura, David sabia que depois ela iria ao cemitério. “Vou descobrir de quem é o terceiro túmulo” ele pensou.
            Minutos depois, Isabella entrou no cemitério levando flores. Ela caminhou lentamente entre as lápides de mármore negro e parou diante do túmulo de seus pais. A jovem tirou flores murchas dos suportes e depositou as novas, dizendo algumas palavras que David não pôde ouvir de onde estava. Ele se escondera atrás de uma árvore, de onde conseguia ver a autora.
            Bella seguiu adiante, parando diante de uma lápide alguns metros à frente e David seguiu-a silenciosamente.  Novamente ela renovou as flores do suporte e disse algo, seguido de lágrimas. Dessa vez, o repórter estava perto o suficiente para ouvir. “Mais um mês sem você, meu amor.”
            Por cima do ombro da jovem, ele pôde ver o nome escrito no mármore, “Bruce Finnigan Evans.”
            -Ele era seu namorado?_a voz de David assustou Isabella, fazendo-a virar-se para ele.
            -O que você faz aqui?
            -Ele é o seu Benjamin, não é?
            -Você não respondeu minha pergunta.
            -Você também não respondeu a minha.
            -Porque não é da sua conta.
            -É verdade, não é? Bruce é seu Benjamin.
            -O que você é, um paparazzi? Vai publicar isso numa revista de fofocas? Não respeita sequer um cemitério?
            -Não estou aqui como repórter.
            -Ah não?_ela ironizou_ Veio visitar alguém e me encontrou por acaso?
            -Não.
            -Como eu pensei. Agora se me dá licença, não tenho mais tempo a perder.
            -Bella, espera.
            Isabela passou por David pisando firme, claramente furiosa com a intromissão do repórter. Ele a seguiu até o carro, determinado a falar com ela de qualquer forma e desfazer a impressão de repórter sensacionalista.
            -Bella _ele segurou-a pelo pulso_ vamos conversar...
            -Quer parar de me seguir e soltar meu pulso?
            -Você vai me ouvir?
            Isabella já estava perdendo a pouca paciência que tinha com o repórter quando algo atrás dele lhe chamou a atenção e de repente ela beijou David nos lábios. E mesmo que ele não entendesse o motivo, correspondeu.
            -Ele já foi _ela falou olhando em volta e recuando um passo
            -Ele quem? Agora eu mereço uma explicação, não acha?
            -Sim _ela odiava ter que admitir isso. Mas não aqui, me siga.
            Minutos depois, eles estavam em uma lanchonete, sentados à mesa perto da janela. Era um lugar que trazia muitas lembranças à autora e onde passara incontáveis horas escrevendo partes de “A imortal”. Passado um minuto, David quebrou o silêncio.
            -E então?
            -Primeiro preciso ter certeza de que você não publicará nenhuma palavra do que vou dizer.
            -Como eu disse, não estou aqui como repórter.
            -Ok. Você estava certo, Helen e eu dividimos a mesma história. E o motivo de eu ter te beijado é que vi o “meu Adam” e não queria que ele soubesse que não tive mais ninguém depois de Bruce.
            -Então é por isso que você parece tão triste, não superou a partida do Bruce.
            -Não. É como no livro, não estou morta, mas é como se estivesse.
            -Não devia ser assim. Você é jovem, bonita, inteligente... Só fica sozinha se quiser.
            -Não é assim, amor não é feito de aparência.
            -Não foi o que eu quis dizer. Você poderia dar a chance de alguém te conquistar, te fazer feliz.
            -Falar é fácil.
            -Sei que “seu Adam” te magoou muito e que “seu Benjamin” é insubstituível, mas se dê uma chance de tentar novamente. A vida já é muito curta, não desista de amar assim tão cedo.
            -Você falando assim, até parece que tem algum interesse.
            Não havia dúvidas de que David tinha sim, muito interesse pelo assunto. Ele nunca acreditara que pudesse se apaixonar tão rápido por alguém e agora estava inegavelmente apaixonado por Isabella. E antes que ele respondesse, ela continuou.
            -Homens dão muita dor de cabeça.
            -Alguns de nós têm muito a oferecer.
            -Estou bem assim.
            -Não pareceu isso quando você me beijou só por ver aquele cara.
            -Não tenho que ouvir isso _Bella levantou e antes que pudesse sair, David levantou, segurou seu braço e puxou-a para perto de si, olhando em seus olhos e sentindo sua respiração entrecortada. Antes que ela pudesse reagir, ele a beijou.
            A jovem ficou imóvel por um segundo, depois tentou empurrar o repórter, mas ele a abraçava forte. Por um instante ela cedeu, mas quando David afrouxou o abraço, ela o afastou e deu-lhe um tapa no rosto.
            -Que mão pesada _ele falou colocando a mão sobre a face ardida
            -Se tentar me beijar de novo vai ser pior! _ Isabella ameaçou, virando-se e saindo da lanchonete.
            -Você bem que gostou _ David seguiu-a
            Ela parou na porta, virou-se e falou furiosa:
            -Se você não parar de me seguir, vou conseguir uma ordem de restrição contra você!
            O jovem ficou parado na porta, observando Bella entrar no carro e sair dali, ele sorriu balançando a cabeça e falou:

–Maluca.

Gabriela G. Bastos
A vida de Sangue&Alma

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A entrevista (parte 1)

            -Srtª Winchester_ a voz da governanta despertou Isabella de seu devaneio_ o repórter a espera na sala de estar.
            -Obrigada srª Jacobs, já estou indo.
            Quando a governanta deixou o escritório, Isabella guardou na gaveta as várias fotografias que espalhara pela escrivaninha e foi ao encontro do repórter. A jovem senhorita Winchester se tornara uma escritora de sucesso em pouco tempo, publicando a trilogia “A imortal”, sobre a vida e os trágicos romances de uma vampira.
            O repórter sorriu ao ver a escritora, ela era uma bela mulher de longos cabelos ruivos, olhos azuis, lábios rosados e corpo esbelto. Ela se aproximou e os dois apertaram as mãos.
            -Srtª Winchester, sou David Jackson, do The New York Times.
            -Pode me chamar de Bella.
            -Ok, Bella_ ele disse seu nome como se saboreasse a palavra e ligou o gravador. Como surgiu a ideia de “A imortal”?
            -Tudo nasceu de um sonho, então a história criou vida e teve vontade própria.
            -Helen, a protagonista, começa como uma jovem doce e sonhadora, então se torna amarga e termina deprimida. Durante toda a história ela busca e luta por amor, mas acaba sozinha na eternidade. O primeiro amor a abandona e o segundo morre. É um final triste, dá a impressão de que não vale a pena lutar por amor. É nisso que você acredita?
            -Quando se tem que lutar por alguém como Adam, realmente não vale a pena. Mas por Benjamin sim. Adam queria diversão e eternidade, Benjamin queria uma família e Helen queria apenas amor._ um nó se formou na garganta de Bella e ela respirou fundo para continuar_ Mas todos procuraram no lugar errado.
            -Adam e Benjamin procuraram algo em Helen, era ela o lugar errado?_David arrependeu-se da pergunta ao ver que a escritora o fuzilou com o olhar.
            -Se Adam queria diversão, não devia ter casado, muito menos com uma humana. Se Helen queria amor, não devia ter aceitado um homem frívolo nem atendido ou perdoado seus caprichos. Se Benjamin queria uma família, não era com uma vampira que conseguiria. Mas a vida é assim, as pessoas cometem erros e Helen teve a eternidade para arrepender-se dos seus.
            -Ela também se arrepende do tempo que viveu com Benjamin?
            -Não, _Bella sorriu_ ela amou muito o lobisomem e com ele foi feliz como jamais foi com o vampiro. O amor que Helen tinha por Benjamin foi tão grande que, mesmo incapaz de morrer, ela absteve-se da vida. Deitou-se ao lado do leito eterno de seu amado e, pela primeira vez em duzentos anos, ela dormiu. Dormiu para não viver em um mundo onde Benjamin não mais vivesse.
            -Você fala desse amor com tanta ternura... Benjamin foi inspirado em alguém em especial?
            -Todos eles representam pessoas reais.
            -Então a trilogia é inspirada em uma história real e não em um sonho?
            -O fato de ser inspirada em uma história real, não exclui o sonho, afinal foi de um sonho que nasceu a magia e a imortalidade.
            -Assim como Helen, você é órfã e cresceu sob os cuidados de um tio. Há mais alguma coisa em comum entre vocês?
            -Tantas que eu não poderia dizer. Quando escrevi a Helen, lhe emprestei meu coração e minha alma, nós duas temos algo da outra.
            -Dividiriam a mesma história triste?
            -Você acha que casei com um vampiro, _Isabella brincou_ depois com um lobisomem e que agora estou adormecida em um mausoléu? _os dois riram_ Acho que muitas pessoas poderiam se identificar com a história da Helen.
            -Sim, certamente. Mas e você, Isabella Winchester, se identifica com a história?
            A escritora tentou disfarçar, mas David percebeu que a pergunta a deixara tensa. Um segundo depois ela sorriu e falou:
            -Passei tanto tempo escrevendo “A imortal” e pensando como Helen, que era como se eu vivesse cada momento da história, poderia até mesmo dizer que vivi. Senti cada sorriso, lágrima, dor, medo, esperança, saudade... Senti tudo o que Helen sentiu.
            -Você parece estar se esquivando da minha pergunta.
            Novamente Bella fuzilou o repórter com o olhar, mas tentou não parecer irritada quando respondeu.
            -Não estou me esquivando. O que eu quis dizer é que quando alguém se envolve de verdade com uma história ela se identifica. A maioria das pessoas já teve pelo menos uma desilusão amorosa ou uma grande perda, e histórias assim trazem à tona esses sentimentos.
            Nada que Bella dissesse faria David mudar de ideia, ele estava certo de que “A imortal” se tratava da história da autora com várias metáforas.     -E quanto ao amor? Helen se mostra muito intensa quando o assunto é amor, assume qualquer risco. Você é como ela ou prefere ir mais devagar?
            A autora achou que aquele repórter era um bocado curioso, mas respondeu mesmo assim.
            -Já fui tão intensa quanto ela, mas agora vou devagar com o amor. Esse pode ser um território bem perigoso.
            A nova informação era um prato cheio para a insaciável curiosidade de David, que não demorou a disparar:
            -Então você já teve uma desilusão tão grande quanto a de Helen.
            Não era uma pergunta e isso deixou Bella mais irritada. Ela teve que respirar fundo antes de falar.
            -Não vou negar, nem contar detalhes, foi há muito tempo.
            -Todos os meses você leva flores ao cemitério e as deposita em três túmulos. Dois deles são dos seus pais, e o terceiro?
            Esta foi a gota d’água, Isabella já não suportava a impertinência do repórter, mas ela não seria grosseira.
            -Sr. Jackson, acredito que já desviamos o suficiente o foco da entrevista.
            -Desculpe.
            Pela primeira vez David pareceu desconsertado, e a escritora gostou disso. O repórter arrumou seus óculos enquanto buscava na mente a próxima pergunta e só então Bella notou que seus olhos eram verdes. E mesmo que ela não admitisse, se sentiu atraída por ele.
            David era alto, loiro e bonito, os óculos lhe davam um ar intelectual. A autora teve que afastar o pensamento de que ele seria namorável se não fosse tão curioso. Por fim ele quebrou o silêncio.
            -O fim da saga foi um tanto surpreendente para os fãs, todos esperavam que Helen tivesse um final feliz. Este final seria a possibilidade para uma continuação?
            -Desde o começo Helen sabe que morrerá de um mal incurável e não deixará descendentes, uma cigana prevê seu futuro. Mas a morte que a cigana fala é uma metáfora, afinal a vampira tem toda a eternidade pela frente, mesmo que adormecida. E não nego que um dia possa haver uma continuação, mas não é uma certeza.
            -Os fãs torcem por uma continuação.

            Ao fim da entrevista, os dois se despediram formalmente. Mas aquela conversa dominaria os pensamentos deles por um bom tempo.

Gabriela G. Bastos
A vida de Sangue&Alma

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Choro

     A dor não era minha, mas tomei-a de empréstimo, senti-a florescer no âmago do meu ser e chorei.
     Chorei como chora o vento quando erra pelas planícies verdejantes, uivando na madrugada fria, varrendo os resquícios da noite sem luar.
     Chorei como choram as nuvens cinzentas, desmanchando-se em gotas pesadas, desabando do céu em torrentes, soluçando trovões e lamentando-se no clarão de um relâmpago.
     Chorei como choram as folhas no outono, que se desprendem de suas árvores e largam-se na vastidão do mundo para perder-se eternamente.
     Chorei como chora a própria dor, com as lágrimas vertendo do coração, emanando o calor da alma e imprimindo vida ao pranto.

     Chorei, então a dor tornou-se minha.

A vida de Sangue&Alma

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Rei caído


Busque, mente, as esquivanças
Que me poupem dessas lembranças
Outrora vagas esperanças
Que agitavam águas mansas

Fatídico passado
Onde um beijo morno e estalado
Deixava o rosto abrasado
Hoje há um sentimento esmigalhado

Descrente do real sentido
Só enxergo o lado sofrido
Do sentimento que é um rei caído
E seu rastro é um coração partido

Busque, mente, o engenho
Que poupe o coração que ainda tenho
Defendê-lo aqui venho

Com todo o meu empenho

A vida de Sangue&Alma

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Desejo

Aquele sorriso sagaz...
Só ele é capaz
De me desestabilizar.
Me monta e desmonta,
Como desejar

O olhar intrépido,
Manhoso e atrevido
Me toma o juízo
E a voz suave
Me guia ao paraíso.

Tento resistir à tentação
E focar na razão.
Quem dera eu fosse de aço!
Não me renderia ao desejo
Que me atrai pro teu abraço.

Derme contra derme
O ar ferve.
Um toque, um carinho...
Cedendo à paixão
Traçamos o tórrido caminho.
A vida de sangue&Alma

terça-feira, 28 de maio de 2013

Caçador

Vamos sair para caçar
Esse é o negócio da família
Seguirei o verde do teu olhar
por qualquer trilha.

"Carry on my wayward son"
Ponha o impala pra rodar
e do rock aumenta o som
Temos pessoas para salvar.

Ele é o Batman, conhece bem a Morte.
Foi ao inferno, céu, purgatório; voltou.
Ele é sem dúvida um homem de sorte.

Não tens vida normal,
meu belo caçador,
és "Supernatural".
A vida de Sangue&Alma

domingo, 5 de maio de 2013

Rota 66


Cap.7 - Final
            O desgraçado foi trabalhar normalmente naquele dia, o que me deu tempo de entrar na sua casa. Abri a porta dos fundos com um canivete e busquei pela faca ou qualquer prova. Aquela casa era estranha, parecia ter saído de um filme em preto e branco, era incrivelmente limpa e não tinha sequer uma fotografia. Pra mim já era prova suficiente de que ele era um psicopata.
            Subi para o quarto e revirei as gavetas, onde encontrei um recorte de jornal que falava da prisão de um casal por matar o filho de oito anos e torturar o de seis. Ilustrando a noticia, havia uma foto de família: o pai carrancudo, a mãe com cara de dor, um garoto magricela assustado e um menor, que logo reconheci. Trinta anos mais novo, mas era ele sem dúvida, o assassino filho da mãe.
            E para meu azar, ele resolvera voltar mais cedo. Quando o ouvi chegar, fechei a gaveta, guardei o recorte no bolso e me escondi em baixo da cama. O ouvi entrar no quarto e vi seus pés irem até o banheiro e só deixei meu esconderijo quando ouvi o chuveiro ligado. Desci silenciosamente para a cozinha e procurei pela faca, não perderia esta oportunidade.
            -Procurando por isto? _a voz soou atrás de mim e senti um calafrio.
            Girei nos tornozelos e o encarei. O cabeça de ovo estava sem camisa, segurando a maldita faca. Vi em seus braços marcas de queimaduras a ferro, feitas na infância por seus pais e então percebi que o gordo bêbado, a líder fresca e o Salsicha tocaram o lugar das cicatrizes, provavelmente Porter também.
            -Você se acha muito esperta, não é? _ele continuou_ Mas você e seu irmão seriam realmente espertos se não entrassem no meu caminho.
            -Seu desgraçado filho da...
            -CALADA! _ele berrou e fez um corte no meu braço esquerdo_ A Srtª receberá um tratamento especial.
            O cabeça de ovo acertou minha cabeça com o cabo da faca e desmaiei. Quando acordei, estava sentada numa cadeira, amordaçada, com pulsos e tornozelos amarrados.
            -Bom que você acordou _ ele sorriu_ já estava impaciente para começarmos a diversão.
            Ele esquentava a faca numa chama acesa no fogão enquanto dizia que me daria marcas como as suas. Mas eu não me daria por vencida assim tão fácil. Lembrei-me do canivete no meu bolso, o alcancei e comecei a cortar discretamente a corda nos meus pulsos.  Então a campainha tocou como por Providência Divina.
            -Se você gritar _ ele ameaçou baixinho_ eu mato quem estiver lá, entendeu?
            Fiz que sim com a cabeça e ele se foi, deixando a faca sobre a mesa, como um lembrete do que me aguardava. Consegui me livrar logo das cordas e fiquei com o coração apertado ao ouvi a voz do meu tio vinda da sala. Ben perguntava por mim, passei o dia todo sem dar noticias.
            O cabeça de ovo o despachou e voltou para a cozinha, quando não me viu amarrada na cadeira, procurou pela faca, mas ela também não estava onde ele deixara.
            -Surpresa _falei após cravar em suas costas a própria arma.
            Dois pensamentos vieram à minha mente. Primeiro: “Alan, vinguei você, meu irmão.” Segundo: mais uma vez minhas mãos estavam sujas com o sangue de um monstro. Parecia que minha vida se resumia a mortes e desgraça.
            Usei a mordaça para estancar o corte no meu braço e voltei ao hospital para falar com Porter. Contei-lhe tudo o que aconteceu, e disse que podia me prender, eu não me importava de ficar mais tempo atrás das grades.
            -Eu não prenderia minha salvadora beijoqueira. _Foi sua resposta, e me deixou corada. Ao que parece, pela manhã ele não estava tão inconsciente quanto o médico falou.
            Resumindo, de criminosa, passei a heroína. Não fui presa por dar cabo daquele monstro, todos da cidade ficaram do meu lado e ainda conquistei o xerife.